Certamente você já viu a frase que acompanha o aviso “Fragile” em embalagens que chegam do exterior. Duas mãos espalmadas circundam uma caixinha e a etiqueta diz: “Handle with care.” Manuseie com cuidado.

Uma querida amiga que mora na Suécia me mandou um e-mail essa semana dizendo que muitas pessoas deveriam ter este adesivo grudado no próprio corpo. Eu diria que não apenas muitas: todas. Afinal, nada mais frágil que um ser humano.

Costumamos tratar com delicadeza as crianças, por seu tamanho e inocência, e os velhos, por sua vulnerabilidade física e também por respeito, mas quando se trata da vastíssima parcela da população que se situa entre esses dois extremos, passamos por cima feito um trator desgovernado. A ideia geral é: adultos sabem se defender.

Alguns sabem, outros menos. Todos nós recebemos vários trancos na vida e acabamos desenvolvendo alguma resiliência e capacidade de se regenerar, mas isso não quer dizer que não há dentro de nós algo que possa quebrar de forma irreversível.

E quebra mesmo. Espatifa de forma a impedir a colagem dos cacos. “Handle with care.”

Há por aí campanhas pregando mais gentileza e mais educação, e assino em baixo, naturalmente. Mas isso tudo tem um caráter superficial, induz apenas a gestos e atitudes corteses, como esperar alguém sair do elevador antes de a gente entrar ou dar bom dia a quem cruza por nós. Isso é tratar bem, não tratar com cuidado.

Tratar com cuidado significa se colocar no lugar do outro e dimensionar o quanto uma estupidez pode machucar. Significa levar em consideração as dificuldades de alguém a fim de não exigir demais de seus sentimentos e posicionamentos. Significa compreender que a comunicação é fundamental para o entendimento e a paz, e que atitudes bruscas podem ser mal interpretadas. Significa honrar o laço construído e não colocar na intimidade a desculpa para agredir – agressões não podem virar hábito da casa.

O que a pessoa leva dentro? Sonhos que podem parecer bobagem para os outros, mas que são sagrados para ela. Traumas que ainda não foram superados e que doem a cada vez que são lembrados. Vergonhas inconfessas. Feridas que custaram a cicatrizar e que basta um cutucãozinho para reabrirem. Desejos que não merecem ser ridicularizados. Necessidade de ser amado e aceito. Uma parte da infância que nunca se perdeu.

As pessoas gritam e rugem umas às outras, como se todos fossem feitos de pedra, como se todos estivessem protegidos por plásticos-bolha, como se a blindagem fosse geral: é só mirar e atirar que não dá nada.

Dá sim. Pode não parecer, mas todo ser humano é um cristal.

O Globo – 14/12/2014

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